Volta às aulas ( parte I )

Volta às aulas e seus contrastes


Esses dias entrei em uma livraria da minha cidade para fazer uma impressão. A loja tinha acabado de fazer uma certa reforma, abrindo mais espaços para as prateleiras das folhas de ofício e cadernos. Pareciam animados, afinal, o tema é VOLTA ÀS AULAS.
Enquanto esperava na fila da impressão, avistei uma mulher que beirava os trinta e poucos anos, um pouco mais do que os meus 33. Bem vestida, despojada e sua filha beirando os seis anos de idade. De repente, eu ouvi a mãe dizer, "filha, já escolheu o que você quer?". Naquele momento, o mundo parou para mim. Me teletransportei para a época de quando eu estava iniciando minha vida escolar.

Lembrei do meu primeiro dia, os colegas novos, aquele medo, friosinho na barriga, e lembro de todas as minhas colegas usarem uma lancheira TOP, da Angélica, da Barbie, da Xuxa, da Mônica, etc...e eu com meu pão com margarina enrolado em uma sacola de supermercado. Confesso, eu quase nunca comia meu lanche, porque eu ficava com vergonha perto das coleguinhas Top, pois uma certa vez, riram do meu lanche, aquelas coisas que nos acontecem na infância. Meus lápis eram de cor, mas não eram da Faber Castell, meus cadernos não eram de capa dura e meu estojo não era aquele rosa de abrir, mais parecendo uma necessaire de hoje.

Lembro de ficar super feliz, porque nos anos 90, o governo estadual forneciam cadernos, borracha e mochila no final de ano como presente de natal. Eu achava aquilo um máximo.
Lembrei porque minha mãe nunca levava eu e meus irmãos para comprar os materiais escolares. Porque o "volta às aulas" é para as crianças, como a feira "loucura por sapatos", é para a mulherada hoje, ou seja, uma tentação!

Levar os filhos para escolherem seus próprios materiais escolares,  é o mesmo que dar um cartão de crédito sem limites para um adulto. As livrarias se enchem de novidades para atrair, não o bolso dos pais, mas os olhares das crianças que podem escolherem o que comprar, sem se importar muito com os preços.

A pergunta que me faço é,  até que ponto um caderno de capa dura com folhas coloridas e adesivos na contracapa, influenciaria na capacidade intelectual do meu filho? Se eu tivesse um? Obviamente os pais querem sempre o melhor para seus filhos, por isso, se eles podem e tem condições, não veem problemas em fazer as vontades dos "criedos".


O que me faz lembrar dos pais que não tem condições, mas que mesmo assim, fazem o melhor que podem. Como foi o caso da minha mãe, fez o que pode. E nem por isso eu tinha dificuldades ou falta de interesse em estudar. Sempre convivi com coleguinhas que tinham mais condições do que eu e que graças aos pais deles, se tornaram adultos generosos. 
Não há nada de errado em sua filha ter uma lancheira top da Frozen, se você ensinar a ela desde cedo, a dividir seu lanche com a coleguinha que não tem, por exemplo.
Depois de um período de férias, voltar às aulas deve ser um momento bom, talvez a compra de materiais, seja uma distração para um recomeço, mas deve ser também uma lição de pais para filhos, sobre humildade.

"Ah, mas você diz isso porque ainda não tem filhos, quando tiver, você verá que é diferente". Como disse, todos os pais fazem o que podem pelos seus. Quando chegar a minha vez, certamente farei o que tiver ao meu alcance, mas entre um caderno bonito e uma caneta brilhante, serei a mãe chata que vai dizer ao filho escolher entre um e outro, porque a vida é feita de escolhas e nem sempre temos tudo o tempo todo e do jeito que queremos. Pois prefiro ser a chata que ensina, do que a mãe triste por um filho mimado que se tornou um adulto egoísta.

Ainda vejo algumas crianças se comportando de maneira assustadora com pouca idade e me pergunto o que será do futuro delas e que adultos estamos criando. Também vi a cena daquela mãe, que por alguma razão, levou seus filhos para a livraria, tendo que dizer não para eles diante daquele universo colorido e fascinante de cadernos com o seu super herói preferido, do lado das mochilas com rodinhas. A mãe estava interessada apenas na promoção das folhas de ofício.

Existe um contraste inegável em nossa sociedade, sobre quem tem ou quem tem menos e quem não tem nada. Mas não podemos fechar os olhos para um futuro cidadão em sala de aula, que pense que é melhor do que o seu coleguinha, por ter "bons" materiais escolares. Mas também não podemos deixar que um caderno sem adesivos, uma mochila sem rodinhas, defina a capacidade de desenvolvimento desse(a) aluno(a).
A educação e o moral nasce em casa. Deixar claro que é legal ter uma caneta com glitter, mas não são os objetos que você usa, que definem quem você é e o quanto você pode ir além. Isso vale para qualquer série, para qualquer idade, em qualquer fase de nossas vidas.

Texto: Patricia Klein
Lembram disso!
imagens: reprodução google 

 

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